

Eu ia começar a escrever sobre as genéticas do Cannabis Cup desse ano quando me dei conta que, muitos dos seguidores aqui no blog, não tem o conhecimento básico necessário sobre a história de algumas das principais plantas competindo esse ano. Baseado nas inscrições dos últimos festivais, resolvi falar sobre um dos principais ramos de sativa da história de nossa erva: a família com sobrenome “Haze”. Mas o que quer dizer essa palavra que acompanha tantas genéticas?
Vou repetir uma frase que já ficou comum aqui no Blog mas é sempre bom reforçar. As referências histórias e nomes são muito difíceis de serem rastreadas. Tudo devido a ilegalidade. Os fatos que irei narrar são o mais próximo que eu consegui chegar de uma história coerente para ilustrar esse ramo tão importante das sativas.
Tudo começou da década de 70, claro. Entre 1970 e 1975, próximo a Santa Cruz, precisamente em Corralitos, no miolo da Califórnia, dois irmãos plantadores conhecidos como “Haze Bros” cultivavam algumas das sativas mais apetitosas de sua época. Entre as variedades que eles usavam em suas cruzas estavam, colombianas, mexicanas, tailandesas e sul indianas. Todas vindas através de sementes importadas sabe-se lá como. Vale lembrar que não existiam “seedbanks” naquela época.

As espécies exatas usadas pelos “Haze Bros” são desconhecidas. Algumas, no entanto, acabaram por serem descobertas. Entre as Colombianas acredita-se que incluíam a Highland Gold e a Wacky Weed. Pelo lado das Sul Indianas, aposta-se em plantas originárias da região de Kerala.
A seleção dos fenótipos mexicanos e colombianos tinha como base seu período de maturação. Eles escolhiam as plantas que floresciam melhor, na latitude 36.9 norte, na região de Santa Cruz, sendo cultivada em estufas. Tudo muito mais baseado no cultivo e na adaptação das plantas a necessidades locais. O objetivo nunca foi criar um banco de sementes.

Os irmãos “Haze” eram cultivadores “sensimilla”, ou sem sementes. Algo que só atesta seu cuidado com o produto final. Seus fenótipos acabaram ganhando fama e ajudaram a espalhar ainda mais o nome “Haze”. Entre esses fumos destacam-se o famoso “Purple Haze”, “Silver Blue Haze” e “Lime Haze”. As variedades púrpura chegavam a valores bem altos no mercado e isso incentivava o desenvolvimento dessas espécies. Mas quem evitaria plantar uma variedade que atingia o valor de 500 dólares a onça?
Como já falei aqui no texto, pela forma com que os irmãos “Haze” focavam suas experiências, fica claro que eles não eram “breeders” e sim plantadores. Os caras nunca trabalharam os seus híbridos em uma linha genética consistente. Isso só foi acontecer depois que um de seus vizinhos, de Santa Cruz, Sam o “Skunk Man”, começou a ajudá-los a produzir a variedade estabilizada de “Haze”, que conhecemos hoje em dia por “Haze” Original.

Em 1984, Sam mudou-se para a Holanda e a coisa cresceu. Em sua bagagem vinha a genética “Haze” que foi introduzida pela primeira vez no mercado de sementes. Em seu catálogo #4, da Cultivator’s Choice, escrito e publicado no outono de 1985, Sam lista a “Haze” como a numero 10 de seu “line-up” de espécies.
Nesse relato Sam reafirma algumas das características da “Haze” original. Em suas palavras, ela é um hibrido inconsistente, onde 10% das plantas são espetaculares, 75% são boas e 10% são fracas. Algo bastante ousado e honesto para um “breeder” dizer sobre sua filha. Ele ainda comenta que a planta precisa de 3 meses de floração para atingir todo seu potencial. Sobre os efeitos, Sam comenta sobre a chapa energética e limpa, clássica entre as sativas. Nas suas últimas linhas ele destaca que a planta não desenvolve-se bem em outdoor na Holanda ou no norte da Califórnia, precisando de mais luz solar para amadurecer perfeitamente seus camarões doces.
Nessa época o Sam não tinha híbridos de “Haze” em seu catálogo. Obviamente isso acabou caracterizando- se em um problema para os Europeus. Afinal, como cultivar uma planta que não desenvolve-se em outdoor no Norte da Europa, e é muito ruim para cultivos indoor com luzes artificiais? A resposta está em desenvolver sub-variedades adaptadas a essas necessidades.
Foi nesse ponto que outro personagem entrou na história.
Ao mesmo tempo que Sam chegava na Holanda carregado com algumas das genéticas mais poderosas dos Estados Unidos, um jovem Australiano/Holandês chamado Neville Schoenmakers nadava em pilhas de dólares. Através de sua empresa “The Seed Bank”, Neville havia colocado um anuncio na “High Times” em 1984 oferecendo sementes de altíssima qualidade. Não demorou para que envelopes carregados de notas de dinheiro começassem a chegar na sua caixa do correio.

Neville começou a colecionar e guardar o máximo de sementes, através de uma infinidade de fontes diferentes. Sempre com a metodologia de plantar e selecionar as melhores plantas para cruzamento. Desta maneira sua coleção de fenótipos crescia rapidamente.
Para coroar sua empreitada, ele comprou uma casa vitoriana na divisa entre Alemanha e Holanda e nomeou-a “The Cannabis Castle”, reformando os dois primeiros andares e convertendo-os em áreas de cultivo. Os jardins da casa foram transformados em estufas de vidro onde ainda mais variedades eram estudadas em condições “outdoor”. Foi então que Neville conseguiu algumas sementes de “Haze”, das quais ele cultivou 3 plantas, nomeando-as A, B e C; sendo que A e C eram machos e B era fêmea. É nesse exato ponto que todas as controvérsias sobre a origem da “Haze” nasceram. No momento em que o Neville pegou essas sementes muitos egos ficaram abalados, obviamente. Incluindo Sam, claro.
Sam o “Skunkman” insiste que o Neville obteve suas sementes com ele, logo depois de sua chegada na Holanda. Por outro lado Neville afirma que suas plantas são originadas de material que ele conseguiu de um cara em NY com uma coleção antiga de sementes. Entre essas estavam algumas que vieram do estoque dos irmãos “Haze” de 1969.

Então ficamos assim. Sam afirma que a origem da genética “Haze” do Neville vem dele. Enquanto o Neville fala que não. Acho que já dei muita atenção para essa polêmica, então vou estacionar ela aqui e continuar falando do que interessa mesmo: maconha boa.
O próprio Sam criou uma série de híbridos. Os dois mais famosos foram Haze x SK#1 e Haze x Keralan (uma sativa Sul Indiana). Essas espécies eram conhecidas por “Fuma Con Diablos” e “Haze Mist”, respectivamente, e eram vendidas pelo “The Flying Dutchmen”.
Voltando ao Neville. Eu havia comentado que ele tinha 3 plantas de “Haze” chamadas de A, B e C. Lembrou? Bom. A e C eram machos e B era uma menina. Essa menina não era uma planta muito interessante. Meio feinha, caidinha e com uma chapa ruim. Por esse motivo Neville descartou ela. Os machos eram mais interessantes. O garanhão chamado de A tinha um cheiro apimentado, enquanto o gostosão C tinha mais aquele gosto terroso achocolatado de tailandesas. Sendo assim, Neville sugeriu que A era um macho com fenótipo mais colombiano, enquanto C era uma “Haze” com características mais “Thai”, obviamente.
No catálogo de 1988 do “The Seed bank” Neville fala um pouco sobre a “Haze”. Ele descreve a planta como uma sativa de longa floração, apreciada e considerada por especialistas como a melhor maconha do mundo. Também fala que a planta foi quase extinta após o “boom” dos anos 70 e que felizmente ele tinha algumas sementes da última colheita em terras americanas. No texto ele novamente atesta as qualidade de hibridização da planta, comentando sobre como ela adiciona efeitos deliciosos a chapadeira, alem da complexidade do sabor.
Existe uma infinidade de híbridos produzidos a partir desse ponto da história. Alguns muito famosos como Neville’s Haze, NL#5 x Haze, Super Silver Haze, entre outros. Nomes interessantes também entraram na brincadeira como DNA Genetics, Soma, Green House e Barney’s. Como o texto já está longo, vou deixar para falar desses anos mais recentes conforme evoluir na descrição das genéticas.
Parabéns se você agüentou o texto até aqui. Agora vem o prêmio do Cannabista para quem empenhou tanto tempo em ler o dever de casa. Sem maiores perdas de tempo, vamos aos “smokereport” propriamente ditos.
A primeira genética que colocarei nesse post chama-se Hawaiian Snow. Uma excelente planta, com porte de campeã. Essa é a genética escolhida pelo Green House para competir no Cannabis Cup desse ano. Ela não é uma total desconhecida, já que é um fumo com passado campeão, tendo vencido a Cannabis Cup de 2003.
Apesar do Arjan não admitir, a Hawaiian Snow é uma mistura de algumas das mais interessantes e diferentes plantas de origem “Haze”, com todas as características necessárias para os amantes de sativas. Hawaiian Haze x Nevil’s Haze x Pure Haze são as genéticas envolvidas na construção dessa beleza. E são elas as responsáveis pela maioria de suas características como o odor característico e a chapa quase psicodélica.
Uma planta muito cabeluda e cheirosa. Um fumo com tons cítricos fortes, clássico “Dutch Haze”, com um efeito adstringente agressivo também. A Hawaiian Snow tem um camarão extremamente cabeludo, com estigmas na cor marrom claro. A quantidade de resina também impressiona, deixando o belô com uma aparência muito bonita. Um camarão mais solto e leve, com densidade menor do que a maioria dos “rockbuds”.
A chapa é forte, energética e claramente sativa. Eu tenho uma sensibilidade muito grande para essas plantas. Então não costumo exagerar em meninas com sobrenome “Haze”. Mesmo assim, não abri mão de deliciar-me com ela.
A maioria dos jurados, aqui na Holanda, não impressionaram-se com a chapa da Hawaiian Snow. Em todo caso eu considerei o efeito muito agradável. Claro, essa não é a planta que você apresentaria para alguém com algum passado psicótico. Até porque esse alerta pode ser estendido a todas as meninas com sobrenome “Haze”
A próxima da fila é a campeã. A Liberty Haze foi a grande vencedora do Cannabis Cup 2011 e é um fumo de primeira, com certeza. Claro, devemos sempre fazer a ressalva de dizer que venceu também pelo marketing que seu coffeeshop fez durante todo o evento. Em todo caso, não é justo atribuir apenas a isso sua vitória. O Green House investiu ainda mais mas não venceu com sua Hawaiian Snow, então méritos ela teve.
O sabor da planta é diferente. Uma tonalidade doce, não muito cítrico. O odor não é tão forte. Algo mais discreto do que a invasão cítrica adstringente que a Hawaiian Snow proporciona. Por outro lado o fumo é muito mais resinado, menos cabeluda e com uma chapa mais potente.
Depois de acender o baseado o “aftertaste” não é muito forte. Infelizmente, esse é um critério que poucas maconhas tem se saído bem nesse Cannabis Cup.
O efeito é bem energético. Uma coisa que eu gostei e me deixou confortável foi o fato de ser pouco psicótica. Apesar de todo aquele efeito cerebral da “Haze”, não senti a tradicional vontade de sair correndo para fora do “coffeeshop” para respirar um pouco de ar puro.
Tentei encontrar mais informações sobre as genéticas que constituem essa delícia mas achei pouco. Assim que souber mais posto aqui.

Tenho apenas uma coisa a dizer sobre a próxima genética, G-13 Haze: Que planta é essa? Certamente a delícia mais potente que fumei nesse Cannabis Cup e talvez na minha vida. Experimentei ela sentado em uma mesa confortável do Coffeeshop Amnésia, já havia fumado umas 5 plantas naquele dia e estava guardando a “G-13 Haze” para o momento certo. Mesmo estando extremamente chapado, senti o efeito do fumo mudando minha percepção logo após o primeiro pega. Uma verdadeira bomba. Um amigo meu, que estava na mesa e é 10 vezes mais maconheiro do que eu, arregou na metade do baseado. Chegou a ser engraçado. Fui obrigado a apagar o “beck” pela metade pois a galera não agüentou a potência. Mas também é complicado competir com essa combinação genética. Duas das plantas mais potentes da história, reunidas em um único híbrido. Ai pouca cabeça agüenta.
A primeira vez que alguém falou dessa planta foi no catálogo do “The Seed Bank” de 1989. Ela era a cruza da “Haze” C do Neville com um clone original da famosa “G-13”, que o governo americano desenvolveu secretamente. Os relatos da época dizem que mesmo assim, G-13 x Haze não foi uma combinação tão feliz, na opinião do breeder. Talvez por isso só tenha ficado no catálogo do “The Seed Bank” por um ano. A história dessa genética praticamente acabou aqui, já que ela foi quase extinta e pouco falou-se dela nos anos que se passaram.
Felizmente esse não foi o fim e novos capítulos da “G-13 Haze” começaram a ser escritos em 2001. Foi nessa data que um novo personagem entrou na brincadeira. Seu nome é Soma. Talvez muitos aqui no blog já estejam familiarizados com essa figura rara. Falei um pouco sobre ele no post anterior sobre Somalicious.
O Soma decidiu começar o seu trabalho com “Haze” tendo como base o material do Neville’s de uma década atrás. Para tanto o ele utilizou-se de 10 sementes que ganhou do Ed Rosenthal.

Esse macho de “G-13 x Haze” que o Soma encontrou era basicamente uma versão do macho C do Neville com uma pequena influencia de G-13. Como o Soma não é “miguelão” distribuiu alguns clones desse macho para outros bancos de sementes. A “DNA Genetics”, por exemplo, criou várias variedades com esse garanhão. Entre elas estão: Connie Chung, Sour cream, Super Cannalope, Chocolope, C13 Haze e Martian Mean Green.
O G-13 Haze que eu consegui é uma versão dessa planta criada pelo Barney’s. Pouco se sabe sobre seu parentesco. O Barney’s apenas fala que é uma cruza entre a G-13 e uma sativa havaiana chamada Hawaiian Haze. Como o clone da G-13 está morto a mais de uma década, não é errado sugerir que essa planta é uma cruza do macho do Soma com alguma outra planta. Difícil acreditar que tenha-se usado uma G-13 pura original.
Mesmo assim o fumo merece todo respeito. Como havia falado antes, um camarão estilo “rockbud”, resinado ao extremo e bastante cabeludo. Aquele cheiro cítrico adstringente clássico da “Haze” está presente. Apesar disso, não é uma planta muito cheirosa. O camarão fechado exala pouco odor. Essa é uma característica comum em muitos “rockbuds”.
Depois de aceso o fumo aperta o pulmão. Rola uma pequena falta de ar até. Me lembra um pouco o efeito de uma maconha que provei vinda da Califórnia em 2006 chamada “Asma”. Não preciso explicar porque ela tem esse nome. Certo?
Mesmo sendo uma chapa sativa extremamente potente ela é leve. Não senti os efeitos psicóticos fortes. Inclusive acho que a pitada de “G-13”, uma indica característica, deixou a menina mais social. Adorei a vibração que ela trouxe para a música. Me lembro que estava tocando algo que nem entendia direito no Amnésia e mesmo assim não parava de mexer o corpo acompanhando o ritmo.
Uma das melhores genéticas que provei nesse Cannabis Cup. Se não ganhar nada não tem problema. Continuará estando entre minhas 3 favoritas.

Agora vamos falar da Super Silver Haze. Escolhi essa genética para se ter uma boa referência de comparações, com as outras “Haze” que estão nesse post. Ela é um clássico, cujo nome é conhecido em todo mundo como uma das plantas mais impressionantes de todos os tempos.
Sua história remota a 1997. Logo depois de abrir seu Green House Centrum, o terceiro da rede, Arjan, Neville e Shatibaba começaram a trabalhar juntos numa nova genética. Cada um deles selecionou uma fêmea de uma colheita de 1000 NL5 x Haze. A fêmea escolhida pelo Neville virou a mãe da Super Silver Haze, enquanto a menina do Shatibaba converteu-se na parte feminina da Mango Haze.
Em abril de 2007, Shatibaba explicou como foi esse processo de seleção, no site mrnice.nl, onde é moderador. Em suas palavras a SSH é uma daquelas plantas F1 que você tem certeza de ter algo espetacular em todo pacote de sementes. Ele confirma a informação de que foram necessárias mais de 1000 sementes de NL5 x Haze para chegar na mãe perfeita. Depois dessa seleção ainda fizeram um teste de descendência (progeny test), que no fim das contas é a única forma de avaliar se a característica escolhida vai perpetuar nas próximas gerações. A SSH é uma planta que exigiu um trabalho gigantesco e isso pode ser testemunhado na qualidade de seu fumo.
Essa mãe de NL5 x Haze que o Neville selecionou foi então apresentada a um macho Skunk x Haze. O resultado dessa experiência foi inscrita na cateoria de hidro, no Cannabis Cup de 1997, vencendo o primeiro prêmio. A Super Silver Haze começou a ser vendida em forma de sementes em 1998, também no Cannabis Cup. Ainda nesse evento ela venceu na categoria hidro, novamente, além de ficar com a primeira colocação geral. Em 1999, para variar, venceu de novo, conquistando algo inédito: a tríplice coroa do Cannabis Cup. Uma planta que converge algumas das genéticas comerciais mais importantes do mundo: Skunk, NL e Haze. Se existe um pináculo da construção de uma planta de maconha ele chama-se Super Silver Haze.
Uma chapadeira complexa. A forte presença sativa da Haze se faz presente, dando tons quase psicodélicos a alteração de cores. O sentimento físico bodiante e relaxante, traz lembrança dos efeitos afegãos emprestados da Northen Lights. As alterações musicais e filosóficas também fazem-se notar. Uma chapa de grande qualidade.
A aparência do fumo é bonito. Extremamente resinado, com bastante concentração de cabelos e uma tonalidade azul escura, que pode ser confundida com verde clara devido a quantidade de tricomas. O odor segue a linha da Haze, com aquela profundidade cítrica herdada das colombianas e uma pegada apimentada na ponta da língua, um presente das genéticas afegãs.
Não há como não perceber a complexidade dessa planta em todos os aspectos que constituem um bom fumo. Um presente que o Neville deu para o mundo da maconha.
Referências:
- https://www.greenpassion.org/index.p…ry-from-uk420/
- http://www.youtube.com/watch?v=tbKCaXRMErQ
- http://en.seedfinder.eu/strain-info/…_or_Legendary/
- http://www.thekingofcannabis.com/haze.html
- http://img1.imagilive.com/1210/Image_43ed.png
- http://www.mrnice.nl/forum/4-talk-sh…rothers-6.html
